Diego Hipólito

19 de Agosto de 2008

Por Gustavo Bonini Castellana

Estarrecedora foi a imagem de Diego Hipólito divulgada hoje na primeira pagina da Folha de São paulo. Sua expressão de pavor e de quem, em uma experiência atroz, única, aguda, descobre o quanto o esporte pode ser cruel com o atleta.Estamos habituados às imagens que traduzem as dores do corpo: fazemos cara feia ao ver a lesão do Michael do Santos, do atleta do halterofilismo nas olimpíadas ou mesmo a clássica imagem do Ronaldinho em sua ultima lesão de joelho. Certamente, se assistirmos a estas imagens 1000 vezes, em todas elas surgira em nossa face a mesma expressão de desconforto, asco, desgosto. No entanto não estamos acostumados a ver imagens que traduzem a dor da alma. O retrato no jornal mostra Diego certamente ainda inconsciente das conseqüências diretas de sua falha. Mas sua expressão já denunciava para os expectadores o tamanho do tombo. Imagino que só depois de alguns poucos segundos, subseqüentes ao momento exato da fotografia, foi que o pensamento “eu não acredito” passou a tomar conta de sua consciência.Segundo seu técnico, quando já a seu lado, Diego passou a repetir insistentemente a mesma frase, e na 15a vez que a pronunciou, a situação tornou-se insuportável para o própria treinador, fazendo com que se afastasse, alegando ser aquele “um momento dele”. Sim, este era um momento dele. Duro e pavoroso como nunca, e só Diego poderia dimensionar o tamanho de sua dor. Mas será esta a explicação para o afastamento do técnico?Ouve-se aqui e ali argumentos que tentam dar conta de episódio tão difícil de explicar. Poder-se-ia argumentar que essas coisas acontecem. Veja o futebol, o time toma um gol aos 45 minutos do segundo tempo e e eliminado da competição.Ou então que os brasileiros “amarelam” mesmo. Veja a Daiane dos Santos, por exemplo: não ganhou nunca em olimpíadas.Ou então que ele irá amadurecer com isso, esta era sua primeira olimpíadas e na próxima estar mais preparado.No entanto nenhum desses postulados dão conta de me consolar ao ver a retrato estampado de sua dor. Através da imagem somos convidados, ou impelidos, a compartilhar do sabor de desgosto vivido por DiegoDo mesmo modo seu técnico, cúmplice daquela dor, sentiu-a assim tão de perto que preferiu usar argumentos da mesma racionalidade inoperante para explicar sua dificuldade em estar ao lado do atleta naquele momento. Compreensível.Acredito q esta infelicidade servira sim para mostrar a Diego Hipólito, e a todos os demais esportistas, como o esporte pode ser excessivamente cruel com o atleta. Na ginástica, então, onde os movimentos São obsessivamente repetidos e planejados, o infortúnio de uma falha parece ser algo ainda menos presumivel em sua pratica. Tenha-se como parâmetro o futebol, por exemplo, onde sabe-se do momento que se entra em campo que tudo, ou qualquer coisa, pode acontecer. E é por isso um erro crucial na ginástica-em especial no ultimo movimento que antecede a medalha de ouro nas olimpíadas - me parece ainda mais cruel.Espero que Diego se recupere dessa. Ele já mostrou, ao longo de sua historia, que tem garra e coragem de sobra para se recuperar das dores do corpo - como uma uma lesão seria no tornozelo ou uma infecção por dengue a poucos dias das olimpíadas. Resta torcer para que tenha a mesma disposição para aceitar a sua falha e paulatinamente se preparar para a próxima competição. Desta vez, ciente empiricamente de que o esporte, apaixonante por mimetizar e iluminar a vida em suas historias de vitória, pode também tornar a vida excessivamente pavorosa em seus momentos de fracasso.

Antes que o diabo saiba que você está morto

10 de Julho de 2008

“Que você esteja no paraíso em meia hora… antes que o diabo saiba que você está morto.”
A frase é tirada de um brinde tradicional irlandês, e seria o título completo do filme “Antes que o diabo saiba que você está morto”, do diretor Sidney Lumet.
O filme é uma mistura muito bem urdida do tradicional com o moderno. A trama é clássica: trata-se da história de um crime perfeito que começa a desandar, os erros se acumulam e as reviravoltas se sucedem - ao contrário do que deseja o brinde do título, não há tempo para redenção antes de que o mal tome conta do cenário. A forma narrativa, contudo, faz referência a um estilo mais moderno, indo de Pulp fiction a Snatch - porcos e diamantes: volta no tempo, muda o ponto de vista, adianta-se novamente, para aos poucos, e de forma proposital, nos mostrar o quadro completo do assalto frustrado. Com nossa curiosidade instigada com muita inteligência pelo diretor descobrimos devagar que nada é exatamente o que pensávamos no começo e que há muito, muito mais do que o vil metal por trás do desenrolar dos fatos.
Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney e Marisa Tomei estão todos muito bem no filme, dando a impressão que o Lumet conseguiu tirar o melhor de cada um em cada cena.
É daqueles filmes que poucos verão - mas que seguirá sendo visto por muitos anos.

Daniel Martins de Barros

A Praga Escarlate

8 de Junho de 2008

Livro breve de Jack London, A praga escarlate (Editora Conrad) traz um velho narrador numa Califórnia do futuro, contando aos netos como o mundo foi assolado por uma estranha doença, que matava as pessoas em minutos, deixandos seus rostos vermelhos - daí o nome da praga, “escarlate”.
Tem algo de Ensaio sobre a cegueira, do José Saramago, na mesma direção mas em sentido contrário: em vez de segregarem os que estão doentes, aqui são os saudáveis que se isolam num prédio, criando um microcosmo.
Parte da mesma coleção do livro Planolândia, já comentado aqui, tais leituras ligeiras podem dar a impressão de falta de fôlego ou paciência para explorar mais seus temas, mas não nos enganemos: essas são obras daquelas que não terminam quando fechamos o livro; sua leitura vai muito além de suas páginas.

Daniel Martins de Barros

A Ponte - reflexões sobre o suicídio

14 de Abril de 2008

Não sei está em todas as locadoras, mas nas principais já pode ser encontrado o documentário “A Ponte”, de Eric Steel.
Inspirado num artigo publicado na The New Yorker (Jumpers) sobre os suicidas que pulam da Golden Gate Bridge, em São Francisco, na Califórnia, o diretor passou o ano de 2004 filmando diuturnamente a ponte mais fotografada dos Estados Unidos. Ao longos dos 12 meses 24 pessoas suicidaram ali. Alguns dos saltos aparecem, explícitos, no documentário.
Mas o filme está longe de ser uma versão moderna de As faces da morte. Trata-se, na verdade, de uma investigação sobre o sofrimento e a dor - mental e existencial - tanto dos que foram como dos que ficaram. Nas longas entrevistas com familiares e amigos de alguns dos suicidas, com testemunhas de saltos, com um sobrevivente, com o fotógrafo que impediu uma moça de pular surge uma infinidade de afetos, muitas vezes contraditórios, ora impelindo ora freando os saltos.
Um dos pontos que mais chama atenção, acredito, é a diferença notória entre os depoimentos dos amigos e familiares e dos desconhecidos e testemunhas casuais. Nota-se claramente um ar de resignação, ainda que marcada por uma dor surda, por parte daqueles que conviviam com os suicidas, enquanto os desconhecidos demonstram maior indignação com o fato, mesmo que não transpareçam sofrimento genuíno.
Contraditório? Não necessariamente.
Normalmente pensamos o suicídio de forma abstrata, como um ato extremo de desesperança. E assim, à distância, o problema nos causa estupefação. Mas, como o filme mostra, aqueles que conviveram com os suicidas normalmente acompanharam sua caminhada paulatina e inexorável rumo ao desespero, e, como diz uma senhora, trata-se de um pequeno passo para empatizar com eles. Sofrem mais, mas entedem melhor.
Talvez seja também um esforço de racionalização, já que ver a situação como inevitável alivia possíveis sentimentos de culpa que os mais chegados pudessem alimentar. Mas afinal, afora os casos de doenças psiquiátricas potencialmente tratáveis, talvez esse desenlace fosse mesmo inevitável, o que só pode imaginar quem efetivamente participou da vida dos que pularam.
Em suma, é um filme pungente, mas um excelente exercício de empatia.

Daniel Martins de Barros

CQC - Ainda não pegou

13 de Abril de 2008

Custe o que Custar, CQC para os iniciados, é o novo programa da TV Band, que vai ao ar às segundas-feiras, 22h30.
Com formato importado da Argentina, no Brasil é apresentado por Marcelo Tas, Rafinha Bastos e Marco Luque, recheado com conteúdo nacional.
A bem vinda proposta de mesclar jornalismo com humor aparentemente ainda não encontrou o tom - apesar de alguns bons momentos, na maior parte do tempo nem o jornalismo esclarece nem o humor diverte. Os apresentadores e repórteres, oriundos em grande parte do teatro e do stand-up comedy, parecem ainda deslocados na função jornalística e não conseguiram acertar a mão na ironia, quer no estúdio ao vivo ou nas reportagens de rua.
Mesmo a idéia de fazer entrevistas com “humor inteligente” não se concretizou por enquanto, pois depois da primeira pergunta ao entrevistado, normalmente ligada a um fato de repercussão - o que é supostamente responsável pelo aspecto inteligente - a conversa caminha para o esculacho, aproximando o programa a um pastiche do Pânico.
É cedo para dizer que deu errado, mas está claro que, para sobreviver, o CQC terá que ajustar melhor o balanço entre riso e seriedade.

Juno, sobre meninos e lobas

28 de Fevereiro de 2008

Depois do sucesso de Pequena Miss Sunshine, que rendeu o artigo mais visitado desse blog até hoje, esse ano foi a vez de Juno, dirigido por Jason Reitman (do excelente Obrigado por fumar), ser a surpresa do ano - vários paralelos existem: são ambos filmes simples, com baixo orçamento, despretensiosos, que por meio da comédia tocam temas sérios. Mais ainda, ambos foram indicados em 4 categorias do Oscar cada um: Miss Sunshine para melhor filme, roteiro original (Michael Arndt), ator (Alan Arkin) e atriz (Abigail Breslin) coadjuvantes, levando ator coadjuvante e roteiro, enquanto Juno foi indicada para melhor filme, direção, atriz coadjuvante (Ellen Page) e roteiro original (Diablo Cody), com o qual foi laureado.
A trama conta o desenrolar de uma gestação indesejada da adolescente Juno, que decide entregar o filho numa adoção combinada para um casal rico que encontra nos classificados. Entremeado com muitas piadas bem sacadas nos diálogos e nas situações está escondido o tema do filme: a maturidade. Mais especificamente, a maturidade feminina diante dos eternos garotos que são os homens: ao lado do adolescente que se deixa levar pelas circunstâncias, do marido inseguro e do pai bonachão encontramos a adolescente determinada, a esposa decidida e a madrasta enérgica. Diante dos dilemas da existência, da insegurança que é viver, enquanto eles hesitam, elas agem.
Não sei se era o tema central do filme, mas foi o que me chamou atenção. Coincidência ou não, o roteiro foi escrito por uma “recém-escritora”que até há pouco era stripper (por opção, e não falta de) e que recebia todo apoio do namorado em sua profissão. Com certeza não é só de Juno que o filme está falando.

Onde os fracos não têm vez

12 de Fevereiro de 2008

Onde os fracos não têm vez será o grande vencedor do Oscar. Aposto.
O filme é da dupla incensada dos irmãos Cohen - que conseguem fazer cinema independente no main stream e que, quando não erram feio, acertam de mão cheia.
Baseado no livro “No coutry for old men”, de Corman Macarthy, conta a história de um psicopata (papel desempenhado com brilho por Javier Barden), frio e insensível e de sua profissão, bastante condizente com sua personalidade - matador de aluguel.
A indignação do xerife antigo (Tommy Lee Jones) diante dos tempos modernos, onde a brutalidade está fora de qualquer explicação possível, dá o tom do filme, e os Cohen sabem como levar a platéia a partilhar do sentimento de falta de sentido na violência que retratam.
É uma barbada. Quer apostar?

Daniel Martins de Barros

Para ver no Carnaval

27 de Dezembro de 2007

Para a maioria silenciosa dos brasileiros que não gosta de ver os desfiles das escolas de samba no Carnaval, vai a dica - até o começo de fevereiro deve sair em DVD o filme No vale das sombras, de Paul Haggis, com Tommy Lee Jones, Charlize Teron, Susan Sarandon.
Nos últimos anos Haggis tem se envolvido apenas com grandes roteiros: escreveu ou dirigiu Menina de ouro, Crash, Cartas de Iwo Jima, A conquista da honra, Cassino Royale - todos figurando entre os principais indicados ao Oscar em seus anos.
Esse mais recente No vale das sombras é uma de suas obras mais engajadas: trata-se de uma peça de propaganda antiguerra que dá seu recado mostrando a devastação psicológica causada pelo campo de batalha, capaz de inverter valores e transformar bons meninos nos monstros que vemos denunciados por tortura e maus-tratos nos noticiários internacionais. A bandeira americana hasteada no final do filme ilustra o que a pátria tem feito com seus filhos.
O filme está saindo de cartaz sem grande sucesso no Brasil, mas deve estar entre os oscarizáveis de 2008, possivelmente acelerando seu lançamento em DVD a tempo de nos salvar dos intermináveis desfiles…

Daniel Martins de Barros

Trabalho duro e recompensa

17 de Dezembro de 2007

Depois de estar entre os últimos colocados em diversas competições mundo afora - em matemática, leitura, corrupção - neste mês o Brasil foi campeão no concurso de filmes para o Youtube, o Project Direct.
O curta-metragem Laços (clique para assistir) foi escolhido por voto dos internautas, batendo finalistas do mundo inteiro.
A história utiliza o realismo mágico para mostrar uma menina que é levada, no dia do velório de seu pai, a refletir sobre os laços que construímos na vida. A opção pela fantasia, a atuação um tanto carregada dos dois jovens, o figurino estilizado, tudo confere ao filme um ar de conto de fadas, de fábula - não é para ser levado a sério em sua forma, mas seu conteúdo remete a verdades profundas, que muitas vezes são mais facilmente encaradas pela via poética.
O ar inocente do filme se completa pela melancólica trilha sonora, composta pela própria protagonista, Clarice (que também compôs a trilha de Lisbela e o Prisioneiro), filha do diretor João Falcão e da roteirista Adriana Falcão, que assina o roteiro de Laços.
O filme não é perfeito, mas seu reconhecimento mundial mostra que conseguiu, no mínimo, condensar criatividade, competência, talento e trabalho duro em pouco mais de seis minutos.

Daniel Martins de Barros

Mexa-se

28 de Novembro de 2007

Está em cartaz no Instituto Tomie Ohtake a exposição Os Cinéticos, concebida pelo Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, de Madrid
Por que vale a pena você sair da sua casa, pegar o carro, dirigir até a Pedroso de Moraes, em Pinheiros, para vê-la?
1 - Porque é grátis, o que elimina uma grande desculpa;
2 - Para conhecer o prédio - por si só uma obra de arte e com grande pujança cultural;
3 - Porque a incorporação do movimento às artes plásticas é uma marca importante da história da arte, com reflexos na comunicação, na publicidade, no seu dia-a-dia;
4 - Porque, dada sua importância histórica, visitando-a nós passamos a conhecer um pouco mais sobre o mundo que nos cerca, e como chegamos até aqui (não temos todos essas dúvidas de vez em quando?)
5 - Porque traz artistas famosos como Duchamp, Dali, Ligia Clark…
6 - Porque é bela - ao lado da importância, grande motivo para contemplá-la
7 - Porque é divertida - obras que se mexem ou que dão essa impressão normalmente são divertidas.
E finalmente, para poder contar para os amigos, motivação oculta, que, embora inconfessável, está por trás de virtualmente tudo o que se faz nessa vida.
Não perca! (Eu já fui…)

Instituto Tomie Ohtake. Rua Coropés, 88, Jardim Pinheiros,
Terça a domingo e feriados, 11h às 20h. Grátis. Até 13 de janeiro de 2008.