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A Praga Escarlate

Domingo, 8 de Junho de 2008

Livro breve de Jack London, A praga escarlate (Editora Conrad) traz um velho narrador numa Califórnia do futuro, contando aos netos como o mundo foi assolado por uma estranha doença, que matava as pessoas em minutos, deixandos seus rostos vermelhos - daí o nome da praga, “escarlate”.
Tem algo de Ensaio sobre a cegueira, do José Saramago, na mesma direção mas em sentido contrário: em vez de segregarem os que estão doentes, aqui são os saudáveis que se isolam num prédio, criando um microcosmo.
Parte da mesma coleção do livro Planolândia, já comentado aqui, tais leituras ligeiras podem dar a impressão de falta de fôlego ou paciência para explorar mais seus temas, mas não nos enganemos: essas são obras daquelas que não terminam quando fechamos o livro; sua leitura vai muito além de suas páginas.

Daniel Martins de Barros

Como afastar a Felicidade

Quinta, 21 de Junho de 2007

Por Daniel Martins de Barros

Acabo de concluir a leitura do livro “Felicidade - uma história”, de Darrin McMahon.
Ao longo de 500 páginas o autor traça a linha do tempo do conceito de felicidade, dos primórdios da era clássica até nossos dias de fármaco-felcidade. Embora impossível resumir uma obra de tamanha abrangência em tão poucas linhas vale ressaltar um ponto.
Em momento nenhum o autor pretende ensinar como alcançar a felicidade. Mas de suas páginas emerge uma fórmula garantida para afugentá-la.
Num trabalho famoso, já exaustivamente citado pela mídia, ficou comprovado que, estatisticamente, as pessoas consideram-se mais felizes a medida que o PIB per capita de seu país aumenta. Só que, ao atingir US$ 13.000 por ano, não há mais aumento de satisfação com o aumento da renda. Ou seja, cerca R$2.000,00 por mês garante toda a felicidade que se pode comprar. Acima disso, há mais bens, mas não há mais satisfação com a vida. Ao mesmo tempo, estudos indicam que a satisfação no trabalho é um componente importante no bem-estar geral das pessoas. Cargas horárias elevadas, cobrança intensa, insatisfação no emprego são fatores de infelicidade.
Donde concluímos: se quisermos ser infelizes, basta-nos assumir empregos estressantes mas que paguem muito dinheiro; assim, desistimos de ter o que pode nos ajudar a ser feliz para termos o que não pode. Familiar?

PS - Viajo para o Congresso de Lei e Saúde Mental. Se der, atualizo o blog nas andanças pelo mundo

Dimensões mentais e geométricas

Quarta, 25 de Abril de 2007

Uma das maiores surpresas que tive no ano, até este mês, pelo menos, foi o livro Flatland: A romance of many dimensions. Trata-se de um breve romance de 1884, escrito por Edwin A. Abbott, um matemático e teólogo inglês que conciliava estes dois campos de seu interesse por meio da literatura.
Filiado ao melhor da escola satírica de seu país, o livro narra em primeira pessoa a vida de um quadrado, habitante de um mundo de apenas duas dimensões. É ele que nos conta como funciona um mundo com profundidade, largura, mas sem altura, no qual os habitantes, todos planos e se olhando “de lado”, só enxergam linhas – embora sejam triângulos, quadrados, e polígonos em geral, o contato visual entre eles só lhes permite ver linhas, incapazes de distinguir os ângulos ou as formas se não for pelo tato – como se duas cartas de baralho se olhassem em cima de uma mesa.
As habilidades intelectuais e conseqüente hierarquia social são dadas pelo tamanho dos ângulos dos indivíduos – os soldados mais violentos têm os ângulos mais agudos, mas são os menos dotados de inteligência. Os sacerdotes, por sua vez, têm tantos lados que seus ângulos são muito obtusos, praticamente indistinguíveis de círculos, fazendo parte, portanto, da alta nobiliarquia. As mulheres são todas linhas, e descritas como passionais e emotivas, destituídas de razão. A ironia com que a sociedade machista e rígida é descrita e a abstração necessária para entrar nesse mundo bidemensional não foram muito bem compreendidas à época, levando Abbott a elaborar um prefácio com explicações sobre a obra – no qual também não deixa de haver certa ironia.
O ponto alto do livro é quando o quadrado recebe a visita de uma esfera, que, tal qual um profeta da 3a. dimensão, traz a revelação da existência da altura. Para o quadrado, cujas categorias mentais nem sequer contemplam a idéia de uma dimensão além das duas que conhece, mostra-se impossível sequer entender do que a esfera está falando. Após argumentar matemática e geometricamente, só resta à esfera traslada-lo para o espaço, quando então seus olhos se abrem e ele contempla a 3a. dimensão. Aqui, não por acaso, a narrativa assume um tom bíblico, já que entra em questão justamente a incapacidade de entendermos algo que transcende nossas categorias mentais, nossa cosmovisão, nossa realidade imanente. Tanto que, de volta ao seu mundo, o quadrado tenta, em vão, explicar para seus conterrâneos a existência de dimensões além daquelas que conheciam até então. Depara-se com incredulidade, resistência e um conluio dos poderosos para abafar qualquer idéia “revolucionária”.
Uma tradução de 2002 foi publicada no Brasil, cuja versão não avaliei, mas para os que quiserem se aventurar, aqui vão os links para a versão em inglês e espanhol. Vale a tinta da impressora.
http://www.matem.unam.mx/buendia/planilandia.pdf (espanhol)
http://www.mat.ufmg.br/gaal/bibliografia/flatland.pdf (inglês)