Arquivo da categoria ‘Cinema’

Antes que o diabo saiba que você está morto

Quinta, 10 de Julho de 2008

“Que você esteja no paraíso em meia hora… antes que o diabo saiba que você está morto.”
A frase é tirada de um brinde tradicional irlandês, e seria o título completo do filme “Antes que o diabo saiba que você está morto”, do diretor Sidney Lumet.
O filme é uma mistura muito bem urdida do tradicional com o moderno. A trama é clássica: trata-se da história de um crime perfeito que começa a desandar, os erros se acumulam e as reviravoltas se sucedem - ao contrário do que deseja o brinde do título, não há tempo para redenção antes de que o mal tome conta do cenário. A forma narrativa, contudo, faz referência a um estilo mais moderno, indo de Pulp fiction a Snatch - porcos e diamantes: volta no tempo, muda o ponto de vista, adianta-se novamente, para aos poucos, e de forma proposital, nos mostrar o quadro completo do assalto frustrado. Com nossa curiosidade instigada com muita inteligência pelo diretor descobrimos devagar que nada é exatamente o que pensávamos no começo e que há muito, muito mais do que o vil metal por trás do desenrolar dos fatos.
Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney e Marisa Tomei estão todos muito bem no filme, dando a impressão que o Lumet conseguiu tirar o melhor de cada um em cada cena.
É daqueles filmes que poucos verão - mas que seguirá sendo visto por muitos anos.

Daniel Martins de Barros

Juno, sobre meninos e lobas

Quinta, 28 de Fevereiro de 2008

Depois do sucesso de Pequena Miss Sunshine, que rendeu o artigo mais visitado desse blog até hoje, esse ano foi a vez de Juno, dirigido por Jason Reitman (do excelente Obrigado por fumar), ser a surpresa do ano - vários paralelos existem: são ambos filmes simples, com baixo orçamento, despretensiosos, que por meio da comédia tocam temas sérios. Mais ainda, ambos foram indicados em 4 categorias do Oscar cada um: Miss Sunshine para melhor filme, roteiro original (Michael Arndt), ator (Alan Arkin) e atriz (Abigail Breslin) coadjuvantes, levando ator coadjuvante e roteiro, enquanto Juno foi indicada para melhor filme, direção, atriz coadjuvante (Ellen Page) e roteiro original (Diablo Cody), com o qual foi laureado.
A trama conta o desenrolar de uma gestação indesejada da adolescente Juno, que decide entregar o filho numa adoção combinada para um casal rico que encontra nos classificados. Entremeado com muitas piadas bem sacadas nos diálogos e nas situações está escondido o tema do filme: a maturidade. Mais especificamente, a maturidade feminina diante dos eternos garotos que são os homens: ao lado do adolescente que se deixa levar pelas circunstâncias, do marido inseguro e do pai bonachão encontramos a adolescente determinada, a esposa decidida e a madrasta enérgica. Diante dos dilemas da existência, da insegurança que é viver, enquanto eles hesitam, elas agem.
Não sei se era o tema central do filme, mas foi o que me chamou atenção. Coincidência ou não, o roteiro foi escrito por uma “recém-escritora”que até há pouco era stripper (por opção, e não falta de) e que recebia todo apoio do namorado em sua profissão. Com certeza não é só de Juno que o filme está falando.

Onde os fracos não têm vez

Terça, 12 de Fevereiro de 2008

Onde os fracos não têm vez será o grande vencedor do Oscar. Aposto.
O filme é da dupla incensada dos irmãos Cohen - que conseguem fazer cinema independente no main stream e que, quando não erram feio, acertam de mão cheia.
Baseado no livro “No coutry for old men”, de Corman Macarthy, conta a história de um psicopata (papel desempenhado com brilho por Javier Barden), frio e insensível e de sua profissão, bastante condizente com sua personalidade - matador de aluguel.
A indignação do xerife antigo (Tommy Lee Jones) diante dos tempos modernos, onde a brutalidade está fora de qualquer explicação possível, dá o tom do filme, e os Cohen sabem como levar a platéia a partilhar do sentimento de falta de sentido na violência que retratam.
É uma barbada. Quer apostar?

Daniel Martins de Barros

Para ver no Carnaval

Quinta, 27 de Dezembro de 2007

Para a maioria silenciosa dos brasileiros que não gosta de ver os desfiles das escolas de samba no Carnaval, vai a dica - até o começo de fevereiro deve sair em DVD o filme No vale das sombras, de Paul Haggis, com Tommy Lee Jones, Charlize Teron, Susan Sarandon.
Nos últimos anos Haggis tem se envolvido apenas com grandes roteiros: escreveu ou dirigiu Menina de ouro, Crash, Cartas de Iwo Jima, A conquista da honra, Cassino Royale - todos figurando entre os principais indicados ao Oscar em seus anos.
Esse mais recente No vale das sombras é uma de suas obras mais engajadas: trata-se de uma peça de propaganda antiguerra que dá seu recado mostrando a devastação psicológica causada pelo campo de batalha, capaz de inverter valores e transformar bons meninos nos monstros que vemos denunciados por tortura e maus-tratos nos noticiários internacionais. A bandeira americana hasteada no final do filme ilustra o que a pátria tem feito com seus filhos.
O filme está saindo de cartaz sem grande sucesso no Brasil, mas deve estar entre os oscarizáveis de 2008, possivelmente acelerando seu lançamento em DVD a tempo de nos salvar dos intermináveis desfiles…

Daniel Martins de Barros

Trabalho duro e recompensa

Segunda, 17 de Dezembro de 2007

Depois de estar entre os últimos colocados em diversas competições mundo afora - em matemática, leitura, corrupção - neste mês o Brasil foi campeão no concurso de filmes para o Youtube, o Project Direct.
O curta-metragem Laços (clique para assistir) foi escolhido por voto dos internautas, batendo finalistas do mundo inteiro.
A história utiliza o realismo mágico para mostrar uma menina que é levada, no dia do velório de seu pai, a refletir sobre os laços que construímos na vida. A opção pela fantasia, a atuação um tanto carregada dos dois jovens, o figurino estilizado, tudo confere ao filme um ar de conto de fadas, de fábula - não é para ser levado a sério em sua forma, mas seu conteúdo remete a verdades profundas, que muitas vezes são mais facilmente encaradas pela via poética.
O ar inocente do filme se completa pela melancólica trilha sonora, composta pela própria protagonista, Clarice (que também compôs a trilha de Lisbela e o Prisioneiro), filha do diretor João Falcão e da roteirista Adriana Falcão, que assina o roteiro de Laços.
O filme não é perfeito, mas seu reconhecimento mundial mostra que conseguiu, no mínimo, condensar criatividade, competência, talento e trabalho duro em pouco mais de seis minutos.

Daniel Martins de Barros

Mexa-se

Quarta, 28 de Novembro de 2007

Está em cartaz no Instituto Tomie Ohtake a exposição Os Cinéticos, concebida pelo Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, de Madrid
Por que vale a pena você sair da sua casa, pegar o carro, dirigir até a Pedroso de Moraes, em Pinheiros, para vê-la?
1 - Porque é grátis, o que elimina uma grande desculpa;
2 - Para conhecer o prédio - por si só uma obra de arte e com grande pujança cultural;
3 - Porque a incorporação do movimento às artes plásticas é uma marca importante da história da arte, com reflexos na comunicação, na publicidade, no seu dia-a-dia;
4 - Porque, dada sua importância histórica, visitando-a nós passamos a conhecer um pouco mais sobre o mundo que nos cerca, e como chegamos até aqui (não temos todos essas dúvidas de vez em quando?)
5 - Porque traz artistas famosos como Duchamp, Dali, Ligia Clark…
6 - Porque é bela - ao lado da importância, grande motivo para contemplá-la
7 - Porque é divertida - obras que se mexem ou que dão essa impressão normalmente são divertidas.
E finalmente, para poder contar para os amigos, motivação oculta, que, embora inconfessável, está por trás de virtualmente tudo o que se faz nessa vida.
Não perca! (Eu já fui…)

Instituto Tomie Ohtake. Rua Coropés, 88, Jardim Pinheiros,
Terça a domingo e feriados, 11h às 20h. Grátis. Até 13 de janeiro de 2008.

Homens x Mulheres

Sexta, 23 de Novembro de 2007

Daniel Martins de Barros

Antes só do que mal casado é o novo filme dos irmãos Farrelly. Você pode não saber, mas já os conhece: Quem vai ficar com Mary, O amor é cego, Ligado em você, O amor em jogo - todos filmes dessa dupla.
Desde o início o humor deles foi marcado pelo politicamente incorreto, fazendo graça com minorias, obesos, anões, deficientes e o que mais rendesse uma boa piada. Com o passar do tempo, ao que parece, eles vêm reduzindo a carga de escatologia e aumentando a sensibilidade nos seus filmes - talvez mirando um aumento no público, tentando agradar os sexos opostos.
Essa mistura de opostos (romantismo e escracho, meninos e meninas) é central em Antes só do que mal casado, no qual Ben Stiller faz o solteirão Eddie Cantrow, que se casa com Lila (Malin Akerman) apenas por não aguentar mais ser o diferente (outra oposição: casado x solteiro), mas acaba se apaixonando de verdade por uma mulher que conhece na lua-de-mel. E é nessa inusitada situação que os irmãos Farrelly encontram o espaço para inserir tanto o romance - acompanhando o destino casal - quanto seu humor mais anárquico.
No fim das contas, acrescentando canalhice à inocência do herói, esperteza à estupidez da esposa, sadismo à simpatia do gerente do hotel, fraqueza à firmeza do melhor amigo, eles criam um painel da ambiguidade humana e constroem uma comédia romântica irônica, paradoxo perfeito para agradar homens e mulheres.

Agora com Nova Fórmula!!!

Quinta, 14 de Junho de 2007

Por Daniel Martins de Barros

Existem duas maneiras de ver Pequena Miss Sunshine, do modo ranzinza ou do modo amigável. E as duas se justificam pelo mesmo motivo: o filme segue uma fórmula pronta de “produção independente”.
1- a presença de uma família disfuncional, com membros estereotipados que representam as agruras da vida - o pai fracassado, o tio invejoso, a mãe infeliz, o adolescente rebelde, a menina feiosa -
2- a obrigação, pela força das circunstâncias, de estabelecerem um relacionamento em prol de um fim maior, revendo seus laços familiares;
3 - a postura de não açucarar a realidade e mostrar as dores de viver;
4 - a tentativa de fugir de um final feliz tradicional, sem contudo estabelecer um final deprimente;
Tornaram-se o novo padrão dos filmes que querem fugir do padrão. Podemos ser chatos e dizer que não adianta fugir do padrão criando outro. Mas prefiro, o que é raro, ser simpático, e ver com bons olhos o fato de termos alternativas ao cinema adolescente que domina as produções. Seguindo ou não uma nova fórmula, pelo menos conseguimos sentir que o cérebro não atrofia enquanto vemos o filme.
Para ser breve - o momento alto do filme é quando a menina Olive apresenta sua coreografia surpresa no concurso Pequena Miss Sunshine. Ensaiada por seu avô ninfomaníaco, ela escancara o que o concurso escode - a sensualização precoce. Sem saber, denuncia toda a distorção que está por trás de qualquer concurso de miss infantil; como não poderia deixar de ser, é rejeitada pela audiência, que prefere (sempre) continuar a fingir que nada está errado.
É apenas um dos aspectos interessantes do filme, mas bastou para me fazer simpático a ele.

Caos e acaso

Segunda, 11 de Junho de 2007

Está em cartaz em São Paulo o filme Não por acaso, cujo principal chamariz é: “o novo filme do Rodrigo Santoro” (outro dos melhores atores de sua geração), mas que deveria ser: “o primeiro longa de Philippe Barcinski”, diretor (pouco) conhecido pelos curtas exelentes “Palíndromo” e “Janela aberta” , além de dois episódios de Cidade dos Homens, da Globo. Isto porque Barcinski se mostra o grande responsável pela alta qualidade do filme, demonstrando que conseguiu transpor para o longa-metragem o domínio narrativo que tinha nos curtas (para quem não os viu, vale a pena procurar no Youtube esses filmes, antes mesmo de terminar de ler essas linhas, pois eles mostram quanta qualidade perdemos por causa da péssima divulgação dos curta-metragem no país).
Não por acaso conta duas histórias paralelas, que não se tocam a não ser “por acaso”. Os protagonistas são um controlador de tráfego da CET e um fabricante de mesas e jogador de sinuca, ambos tentando o tempo todo lutar contra o imprevisível, tentando se antecipar ao tempo, prevendo o que, por princípio, não pode ser previsto.
A dificuldade profissional que eles têm para lidar com o caos em suas profissões remete a nossa própria angústia diante do imponderável - nosso cérebro é programado para prever, antecipar, antever, e acostumamo-nos a isso como se fosse natural saber o que vem a seguir. Assim, ficamos desconfortáveis, inquietos e ansiosos quando, por quaisquer circunstâncias, somos lembrados que o caos, por definição, resiste à ordenação.
O grande mérito do filme, portanto, é nos lembrar que a vida é feita do imponderável; Barcinski aumenta nossa inquietação propositalmente: ao vivenciar a dificuldade dos protagonistas em lidar com o caos da vida deles nos aquietamos diante do caos da nossa própria vida.

Blockbuster também tem alma

Segunda, 21 de Maio de 2007

Quando um filme é a maior bilheteria de estréia da história, quando bate recorde de arrecadação, quando é sucesso de público em todas as faixas etárias e, sobretudo, quando fala de um rapaz que é meio homem, meio aranha, é natural que um certo preconceito coce no fundo de qualquer um.
Mas como preconceito é uma forma de burrice, deixemo-no de lado e vamos a Homem-Aranha 3.
A introdução foi só para dar um sabor de suspense, porque na verdade eu gosto desses filmes da Marvel, empresa dos quadrinhos de super-heróis. E quando fiquei sabendo que seria (provavelmente) o último da série fiquei imaginando porquê, já que os filmes vêm numa seqüência muito bem sucedida.
Vendo o filme fica claro: a série cansa um pouco. Não perde qualidade, não perde o ritmo, não se torna menos interessante; simplesmente sofre com o ciclo natural: na primeira continuação ela deixa de ser novidade, na segunda, já é apenas “mais do mesmo” - uma quarta parte correria o risco de ser cansativa, e isso o nosso “vizinho amigável”, apelido que o Homem-Aranha dá a si mesmo, não merece.
O 3o. filme mantém a mesma dinâmica - um vilão acidental, um conflito psicológico no protagonista, problemas para conciliar o amor a Mary Jane e a “grande responsabilidade” que o “grande poder” lhe trouxe, nas palavras de seu tio morto no primeiro filme e que ecoam até esse. No mais, brigas, lutas, perseguições, a fórmula de sucesso secular - diversão e escapismo, afinal, são também funções da arte.
Isso não impede um toque de alma apareça no final - um dos vilões diz que roubava para com o dinheiro tentar salvar a vida da filha: “Não tive opção.”, argumenta com o Aranha. “Sempre temos opção” - rebate o herói, sem deixar claro se a opção seria uma maneira alternativa de conseguir o dinheiro ou optar por deixar a filha sem tratamento para não infringir as leis.
Muito bem: um dilema moral fechando um blockbuster mostra que “filmão” também tem alma.