Homens x Mulheres

23 de Novembro de 2007

Daniel Martins de Barros

Antes só do que mal casado é o novo filme dos irmãos Farrelly. Você pode não saber, mas já os conhece: Quem vai ficar com Mary, O amor é cego, Ligado em você, O amor em jogo - todos filmes dessa dupla.
Desde o início o humor deles foi marcado pelo politicamente incorreto, fazendo graça com minorias, obesos, anões, deficientes e o que mais rendesse uma boa piada. Com o passar do tempo, ao que parece, eles vêm reduzindo a carga de escatologia e aumentando a sensibilidade nos seus filmes - talvez mirando um aumento no público, tentando agradar os sexos opostos.
Essa mistura de opostos (romantismo e escracho, meninos e meninas) é central em Antes só do que mal casado, no qual Ben Stiller faz o solteirão Eddie Cantrow, que se casa com Lila (Malin Akerman) apenas por não aguentar mais ser o diferente (outra oposição: casado x solteiro), mas acaba se apaixonando de verdade por uma mulher que conhece na lua-de-mel. E é nessa inusitada situação que os irmãos Farrelly encontram o espaço para inserir tanto o romance - acompanhando o destino casal - quanto seu humor mais anárquico.
No fim das contas, acrescentando canalhice à inocência do herói, esperteza à estupidez da esposa, sadismo à simpatia do gerente do hotel, fraqueza à firmeza do melhor amigo, eles criam um painel da ambiguidade humana e constroem uma comédia romântica irônica, paradoxo perfeito para agradar homens e mulheres.

Gente é coisa estranha (2)

1 de Novembro de 2007

Diante da grande repercussão do texto do casal-amantes, resolvi deixar a preguiça e arriscar uma interpretação mais séria:
Qualquer tipo de relacionamento (amizade, namoro, filiação, até mesmo vida em condomínio) requer investimento de energia: é preciso ceder, tolerar, compreender, há um desgaste emocional nesse dispêndio de energia. Ainda assim nós nos relacionamos por sentir que o balanço é positivo - as benesses do relacionamento superam os custos de se mantê-lo.
No relacionamento conjugal essa equação é potencializada pelo convívio íntimo, pelo contato constante, pelo compartilhamento de maiores responsabilidades: o investimento emocional é mais alto. O ganho, por outro lado, supostamente é maior.
O casal bósnio aparentemente não estava com essa equação equilibrada: provavelmente sentiam que estavam dando mais do que recebendo. Apelar à internet foi um meio de buscar mais ganho do que tinham no casamento, mas com baixo investimento.
A aparente contradição vem do fato de eles se apaixonarem na internet e se separarem na vida real. Mas a contradição é só aparente, pois os relacionamentos virtuais fogem à equação dos relacionamentos reais: o custo é baixo, ninguém precisa tolerar o outro, compreender ou amparar, basta fazer um logoff. Por outro lado, os ganhos parecem bons: elogios, diálogos, conselhos, promessas de um tempo melhor. Assim, pensando estar apaixonados, resolvem se encontrar no mundo real. Se fossem dois desconhecidos possivelmente iriam se envolver e só com o tempo passariam a ver que o custo da relação não era baixo como parecia na rede e que os ganhos eram diferentes das simples palavras que trocavam. O fato de se reconhecerem imediatamente gerou um insight (”Ah, é mesmo, tinha esquecido que é preciso gastar energia para estar com alguém”) apenas acelerando o processo.
No fim, o fato é que relacionamentos pedem que se invista bastante; mas se os recursos são bem aplicados, os ganhos são ainda maiores.

Daniel Martins de Barros

Gente é coisa estranha

31 de Outubro de 2007

Foi proposto aos psicólogos tentar explicar esse fato*:
Numa cidade bósnia um casal em crise, cansado do relacionamento por se iludir que se vive no fogo da paixão eterna, buscou refúgio nos sites de bate-bapo. Obviamente o marido e a esposa não informaram um ao outro dessa escapadela. Após alguns contatos, cada um deles acabou encontrando um parceiro virtual, com quem compartilhavam os problemas e dividiam à noite as mágoas surgidas durante o dia, no desgaste do relacionamento. Nos dois casos as relações foram se tornando sérias, e, como é usual hoje em dia, tanto o marido como a esposa resolveram encontrar seus amigos virtuais na vida real. Surpreendentemente (ou não), quando chegaram ao local marcado deram de cara um com outro - sem saber, vinham brigando na vida real e se consolando na virtual. Espantados, decidiram que o melhor a fazer era definitivamente se separar.
Como não sou psicólogo arrisco uma explicação não técnica (ser psiquiatra ensina a lidar com doença, não com estranheza): isso aconteceu porque
1 - Homem é tudo igual;
2 - Mulher é tudo igual;
3 - Casamento é tudo igual;
E, principalmente,
4 - O ser humano é muito, muito estranho.

*Fonte: Folha Informática 16/10/2007

É possível mudar de ponto de vista?

16 de Outubro de 2007

É meio incômodo. Na verdade, se você levar muito a sério, pode ser desesperador. Mas é tão curioso e instigante que vale a pena visitar e responder: para que lado esta bailarina está girando?
Assim que abre a janela vemos que ela está girando para um lado. Mas se alguém lhe disser que ela está girando no outro sentido, você acreditaria? E ainda mais perturbador: você consegue se concentrar a ponto de vê-la girando ao contrário?
O site traz um arremedo de explicação neurocientífica, supostamente relacionado a seu lado do cérebro de uso preferencial.
Mas independentemente de como a circuitaria cerebral produz esse efeito, o mais interessante é perceber como as nossas mais arraigadas certezas podem ser questionadas. Mesmo aquilo que vemos com nossos olhos e de que não temos a menor dúvida pode ser visto de maneira exatamente oposta por outras pessoas. E mais que isso, se nos esforçarmos um pouco, nós mesmos conseguimos enxergar a situação de um ponto de vista alternativo.
Fica a lição.

Telemarketing do bem

28 de Setembro de 2007

Quem diria ser isso possível - o telemarketing promovendo saúde.
Sabendo que as pessoas com depressão muitas vezes não se tratam, e quando o fazem nem sempre são acompanhadas de forma adequada, sempre houve dificuldade em provar para as empresas que tratar a depressão de seus funcionários gerava lucro.
Pensando nisso um grupo de pesquisadores do National Institute of Mental Health, nos EUA, desenvolveu uma pesquisa, publicada este mês no Journal of American Medical Association, na qual os funcionários de uma empresa foram submetidos a um rastreamento e posterior confirmação diagnóstica para depressão. Foram então dividos em 2 grupos, um recebendo tratamento habitual e outro com incentivo e monitoramento telefônico do tratamento. No fim das contas, os pacientes contactados por este psico-telemarketing apresentaram melhores índices de retenção de emprego, mais horas trabalhadas e maior produtividade, gerando um retorno sobre investimento bastante favorável aos empregadores.
Considerando o grau de estresse que o telemarketig gera nas duas pontas da linha (em quem liga e em quem recebe), é bom lembrar que o problema nem sempre está no instrumento, mas no uso que fazemos dele.

O Renan Calheiros está certo?

17 de Setembro de 2007

Pergunta imbecil?
Para os que não leram o texto anterior resumo: em pesquisa extensa e rigorosa, descobriu-se que 40% dos brasileiros analfabetos concordam com a afirmativa: “Se alguém é eleito para um cargo público, deve usá-lo em benefício próprio, como se fosse sua propriedade”, contra 3% dos brasileiros com educação superior. Isso deixa claro que se um político quer continuar roubando e sendo eleito, quanto mais analfabetos houver, mais chances ele tem.
Bem, sabe-se que 3/4 da população do nosso país não consegue compreender um texto lido (entre analfabetos e analfabetos funcionais). Somos 186.770.562 brasileiros segundo dados do IBGE de 2006. Se fizermos as contas, significa que 140.077.921,5 podem ser considerados “quase” analfabetos. Acreditando nos números da pesquisa, concluiremos que 40% deles, ou 56.031.168,6, isso mesmo, mais de cinqüenta e seis milhões de pessoas nesse país acham que Renan Calheiros estava certo de fazer o que fez (o que quer que tenha sido). Não tenho os dados sobre quantos de nós concordamos com o uso pessoal do cargo público entre os com 1o. ou 2o. graus, completos ou não. Mas dou de barato que, ao fim, mais de 60 milhões de brasileiros acham que o presidente do senado deve ser elogiado, ao invés de condenado. Não é de estranhar a notícia de que houve festas populares em cidades alagoanas comemorando sua absolvição no senado.
Diante dessa realidade sombria, na qual um terço do país não apenas tolera, mas admite como correta a corrupção, leia de novo o título.
Difícil dizer, não?

Ô povo ignorante!

12 de Setembro de 2007

Você também não teve sempre a sensação de que manter o povo na ignorância é proposital, que não interessa ao governo investir seriamente em educação? Pois é, eu tinha certeza, mas faltavam-me argumentos mais precisos do que os genérios “o povo educado é mais crítico” e “isso não interessa a quem está no poder”.
Não faltam mais.
Saiu há pouco o livro “A Cabeça do Brasileiro”, do sociólogo Alberto Carlos Almeida, que compila uma extensa pesquisa de opinião no país todo. Os temas são vários, desde preconceito contra o homossexualismo até relacionamento entre patrão e empregado.
Mas uma pergunta em particular vem a calhar para a nossa tese: quando perguntados se concordam com a frase “Se alguém é eleito para um cargo público, deve usá-lo em benefício próprio, como se fosse sua propriedade”, responderam que concordam 3% das pessoas com curso superior. Entre os analfabetos, 40% concordam.
O resto é história. Não quer dizer que só 3% dos graduados roubariam na política, mas significa que, para quase metade dos analfabetos, político tem mesmo que roubar.
Agora digamos que eu seja um político e queira continar roubando e sendo reeleito. Pode haver melhor eleitorado do que os analfabetos?

Mais do mesmo

11 de Setembro de 2007

Leio na Folha de São Paulo uma crítica sobre a exposição de Vik Muniz - ele estaria se tornando repetitivo, copiando a si mesmo, sem trazer novidade. Pode até ser, mas espere um pouco: levante a mão do mouse quem já foi a uma exposição desse que é um dos artistas brasileiros mais valorizados do mundo. Ok, se você não o conhece abra agora este link: Galeria.
Vik Muniz, nascido no Jaraguá e há mais de 20 anos morando em Nova York, cria obras a partir de materiais inusitados, como lixo, brinquedos, poeira, açúcar ou diamantes. Monta retratos, paisagens, quadros clássicos, os fotografa, imprime 12 imagens e as vende por valores que vão de US$5.000 a US$30.000.
Uma olhada rápida nos seus trabalhos mostram que ele realmente encontrou uma fórmula. Mas seu objetivo, menos do que transformar o mundo, tem sido criar obras cheias de beleza, capazes de enternecer e até mesmo espantar, sobretudo considerando que ainda há muita gente que, por nunca tê-lo admirado, não irá considerá-lo repetitivo. Pode até parecer comodismo artístico-intelectual, mas no que depender dessa modesta opinião que ele nunca conhecerá, seu apuro técnico, a plasticidade de suas obras e sua capacidade de espantar justificam mais do mesmo por ainda bastante tempo.
PS - Se quiser engrossar as fileiras dos que o valorizam, há uma bela exposição gratuita no Paço das Artes (av. da Universidade, 1, Cidade Universitária, USP. Terça a sexta, das 11h30 às 19h, sáb. e dom., das 12h30 às 17h30, até 7/10).

Leis x valores

4 de Setembro de 2007

Por Daniel Martins de Barros

Dos muitos recortes que podem ser feitos a partir do filme Laranja Mecânica, interessa-me um em particular - a tentativa desesperada da sociedade de curar a violência como se fosse uma doença.
A atualidade do tema mostra que nossa dificuldade em encontrar soluções adequadas para este problema vem de muito tempo, e nada indica que estamos nos aproximando de uma solução. Mais recentemente o filme “Minority Report - a nova lei” mostrou que, trinta anos depois, Estados e sociedade não desenvolveram uma técnica eficaz que consiga dar conta dos instintos agressivos dos seres humanos. Não há “técnica Ludovico” ou “nova lei” que consiga impedir o homem de ser mau quando ele quer.
Se nem Anthony Burgess ou Philip K. Dick, autores, respectivamente dos livros Laranja Mecânica e Minority Report, nem Kubrick ou Spilberg - diretores dos filmes homônimos - apontaram uma solução, não me arrogo tal tarefa. Mas se levarmos em conta que meios coercitivos vêm repetidamente se mostrando inúteis, é hora de nos voltarmos para uma discussão ética, e, mais do que leis e códigos, investir em princípios e valores.
Pode até não funcionar, mas é algo que ainda não tentamos.

Contra as fotos dos turistas

28 de Agosto de 2007

Como muitas coisas que se tornam hábitos, a prática de tirar fotografia parecer fazer parte de nossa programação biológica, como comer ou respirar. Mas não é.
A fotografia foi inventada no século XIX e desde então fincou raízes na sociedade humana, encantada com a possibilidade de fixar para sempre seus momentos. A popularização das máquinas digitais, dois séculos depois, elevou essa mania a níveis jamais imaginados na história humana ao praticamente zerar o custo de cada foto, aumentando distorções já presentes na fotografia convencional.
Essas distorções, é bem verdade, não são culpa da máquina digital, mas da mania das pessoas de fazer as coisas sem pensar.
Aqueles que, em algum momento de sua vida pararam para pensar “Por que tirar fotos?” terão chegado a meia dúzia de conclusões apenas: foto serve sempre para gravar, recordar, fixar, manter, rememorar, enfim, transmitir a outro tempo e lugar o momento, o clima, a beleza, o sentimento, o espírito da época etc. A não ser em casos de documentação, quando a finalidade é fixar informações objetivas.
Pronto - a partir daí, vemos quanto desperdício de tempo de contemplação e vivência há nas viagens turísticas. As pessoas, com suas máquinas digitais, preocupam-se mais em tirar boas fotos do que apreciar a paisagem. Há uma neurose em conseguir boas imagens, e é extremamente comum observar pessoas tirando fotos, três, quatro vezes até fazer uma “boa”. Notemos que eles estão sempre de costas para o que deveriam estar olhando. Ou seja, deixam de olhar para ter uma foto boa para depois lembrar do que não viram direito. Não é exagero - pergunte aos seus amigos: as pessoas voltam com mais de mil fotos de uma viagem de 10 dias. Isso dá quase 10 fotos por hora; não é possível contemplar nenhum lugar assim.
O turismo existe para que as pessoas conheçam um lugar. Não apenas para que o vejam - para isso bastam as fotos alheias. Conhecer passa por gastar tempo, se envolver, olhar, cheirar, sentir. Quando vejo alguém virando de costas para o lugar que devia estar olhando a cada cinco minutos , tenho certeza de essa pessoa precisa caprichar muito nas fotos, pois estas serão as únicas recordações que ela terá.